Convivemos com o terror
diariamente.
Não vamos ser inocentes
ao ponto de achar que isto é algo novo. A humanidade cresceu sobre a violência,
olhemos para o nosso passado. No entanto, houve algo que mudou, o desejo vivo e
claro de que termine essa violenta forma de afirmação do eu (seja uma pessoa,
um povo, um estado, uma nação.
Mas, por outro lado,
convivendo lado-a-lado, quase imperceptivelmente, ou porque não queremos
admitir a nós mesmos, já paira uma certa indiferença. Clarifico, não acuso de
que a morte violenta e a violência que subjuga as pessoas não sejam algo que
nos afecte, mas o que acontece é tanto,
que já não temos a capacidade de assimilar tudo o que acontece a base diaria.
Esta semana foi marcada
pelo ataque ao jornal Charlie Hebdo
em Paris. Todos sabemos o que aconteceu. Todos temos uma opinião. De repente
todos somos Charlie. Todos
partilhamos dum sentimento de horror e indignação perante a forma brutal como
dois homens mataram doze jornalistas e cartoonistas, motivados pelo trabalho
que estes realizavam, o cartoon satírico.
Uma vez mais, agora
secundarizando um pouco este ataque, ao mesmo tempo que nos sentimos
horrorizados com essa brutalidade, existe uma avidez de consumo das imagens com
as quais somos bombardeados a toda a hora através da televisão, periódicos,
internet. Quantas vezes vimos o polícia Ahmed a ser morto a tiro caído no chão?
E quando foi o enforcamento de Saddam Hussein em 2006 (uma simples pesquisa no
Google e temos à nossa disposição todo um leque de, não só de notícias, de
fotografias e vídeos do momento)? Quantas vezes vimos as vítimas do 9/11 a
saltar das torres? E a fotografia do
muro que caiu sobre os estudantes no Minho? E tantas outras que nos chegam da
Síria, Irão, Iraque…? Tenho 23 anos. Façamos as contas. Estas imagens fazem
parte do meu imaginário.
Ontem, com a minha
filha ao colo, queria ver as notícias relativas ao cerco aos terroristas e foi
uma valente jigajoga de zapping porque, se eu não quero ver essa
violência, muito menos quero que isso faça parte do inconsciente/consciente em
formação da minha filha.
Não pretendo com isto
negar-lhe, ou a qualquer criança em construção como indivíduo, a realidade do
mundo. Tal como disse, é a realidade. Mas isso não passa pelo acto de, através
um ecrã ou papel (com todo o distanciamento que isso implica) ver violência.
Há uma clara
banalização da violência. Somos constantemente impingidos com imagens de corpos
desfeitos, marcas de sangue, mortes em directo, execuções filmadas. Este é o
jornalismo de hoje. Este é o mundo em que vivemos, em que nos tornamos
consumidores de violência real. O
passo que faltava dar para um verdadeiro reality-show
ou retornar ao Coliseu de Roma.
Pensemos na família das
vítimas. Diariamente atormentadas com o último momento do filho, marido, irmão,
irmã. Diariamente a ser invadidas com uma imagem que se tornou de todos. Em que
o pessoal se tornou público. Da forma mais horrenda possível.
Agora o
contra-argumento: a violência existe e não podemos fingir o contrário. Sim, é
verdade. Mas há limites. A informação não precisa de ser gráfica e explícita
para transmitir conteúdo e o consumo diário da violência não leva a uma maior conscientização do facto, senão à sua
banalização. Quase como a história de Pedro e o lobo. E isto, para mim, ultrapassa a questão da
liberdade de expressão.
Isto é uma questão de ética no jornalismo, que neste
momento, não existe, tendo sido ultrapassada pela lei do vale-tudo. O exemplo
mais claro é o Correio da Manhã, o
culminar do sensacionalismo e do não-jornalismo, onde se dão ao trabalho,
quando há falta de imagens reais do acto violento, de fotografar reproduções do
momento, com actores. Acho que é clara a necessidade por detrás disto.
Isto preocupa-me.
Preocupa-me o mundo em que vivemos e preocupa-me o mundo que estamos a
construir, num caminhar cada vez mais rápido para o momento em que a violência
vai deixar de ser o que é, violenta.
Lisboa, Janeiro de 2015
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