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Saturday, January 10, 2015

Sobre a Violência

Convivemos com o terror diariamente.

Não vamos ser inocentes ao ponto de achar que isto é algo novo. A humanidade cresceu sobre a violência, olhemos para o nosso passado. No entanto, houve algo que mudou, o desejo vivo e claro de que termine essa violenta forma de afirmação do eu (seja uma pessoa, um povo, um estado, uma nação.

Mas, por outro lado, convivendo lado-a-lado, quase imperceptivelmente, ou porque não queremos admitir a nós mesmos, já paira uma certa indiferença. Clarifico, não acuso de que a morte violenta e a violência que subjuga as pessoas não sejam algo que nos afecte, mas o que acontece é tanto, que já não temos a capacidade de assimilar tudo o que acontece a base diaria.

Esta semana foi marcada pelo ataque ao jornal Charlie Hebdo em Paris. Todos sabemos o que aconteceu. Todos temos uma opinião. De repente todos somos Charlie. Todos partilhamos dum sentimento de horror e indignação perante a forma brutal como dois homens mataram doze jornalistas e cartoonistas, motivados pelo trabalho que estes realizavam, o cartoon satírico.

Uma vez mais, agora secundarizando um pouco este ataque, ao mesmo tempo que nos sentimos horrorizados com essa brutalidade, existe uma avidez de consumo das imagens com as quais somos bombardeados a toda a hora através da televisão, periódicos, internet. Quantas vezes vimos o polícia Ahmed a ser morto a tiro caído no chão? E quando foi o enforcamento de Saddam Hussein em 2006 (uma simples pesquisa no Google e temos à nossa disposição todo um leque de, não só de notícias, de fotografias e vídeos do momento)? Quantas vezes vimos as vítimas do 9/11 a saltar das torres?  E a fotografia do muro que caiu sobre os estudantes no Minho? E tantas outras que nos chegam da Síria, Irão, Iraque…? Tenho 23 anos. Façamos as contas. Estas imagens fazem parte do meu imaginário.

Ontem, com a minha filha ao colo, queria ver as notícias relativas ao cerco aos terroristas e foi uma valente jigajoga de zapping porque, se eu não quero ver essa violência, muito menos quero que isso faça parte do inconsciente/consciente em formação da minha filha.

Não pretendo com isto negar-lhe, ou a qualquer criança em construção como indivíduo, a realidade do mundo. Tal como disse, é a realidade. Mas isso não passa pelo acto de, através um ecrã ou papel (com todo o distanciamento que isso implica) ver violência.

Há uma clara banalização da violência. Somos constantemente impingidos com imagens de corpos desfeitos, marcas de sangue, mortes em directo, execuções filmadas. Este é o jornalismo de hoje. Este é o mundo em que vivemos, em que nos tornamos consumidores de violência real. O passo que faltava dar para um verdadeiro reality-show ou retornar ao Coliseu de Roma.

Pensemos na família das vítimas. Diariamente atormentadas com o último momento do filho, marido, irmão, irmã. Diariamente a ser invadidas com uma imagem que se tornou de todos. Em que o pessoal se tornou público. Da forma mais horrenda possível.

Agora o contra-argumento: a violência existe e não podemos fingir o contrário. Sim, é verdade. Mas há limites. A informação não precisa de ser gráfica e explícita para transmitir conteúdo e o consumo diário da violência não leva a uma  maior conscientização do facto, senão à sua banalização. Quase como a história de Pedro e o lobo.  E isto, para mim, ultrapassa a questão da liberdade de expressão. 

Isto é uma questão de ética no jornalismo, que neste momento, não existe, tendo sido ultrapassada pela lei do vale-tudo. O exemplo mais claro é o Correio da Manhã, o culminar do sensacionalismo e do não-jornalismo, onde se dão ao trabalho, quando há falta de imagens reais do acto violento, de fotografar reproduções do momento, com actores. Acho que é clara a necessidade por detrás disto.

Isto preocupa-me. Preocupa-me o mundo em que vivemos e preocupa-me o mundo que estamos a construir, num caminhar cada vez mais rápido para o momento em que a violência vai deixar de ser o que é, violenta.


Lisboa, Janeiro de 2015

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