10º dia no outro lado do oceano.
Quando se faz uma grande mudança de lugar há sempre uma
mistura de sentimentos opostos: ou está fortemente presente no corpo e na
cabeça a sensação de que já se está nesse lugar há muito tempo, sendo que,
quando olhamos para trás, as memórias do
lugar que deixamos estão longe, bem longe, ou, ao mesmo tempo, a noção de que
foi ontem que se chegou, de tão presos que nos sentimos por vezes àquilo que lá
deixamos.
Assim me sinto, a balançar entre estes modos de estar, de
sentir o que estou a viver neste momento, suavemente umas vezes, outras num
verdadeiro turbilhão.
A verdade é que passaram já, ou somente, 10 dias. As
saudades da outra casa apertam, principalmente sabendo-a no meio duma névoa que
teima a não se ir embora. Por outro, sinto-me feliz por estar aqui, num lugar
que já não me é desconhecido, permitindo-me retornar contente a ele. Sinto-me
bem neste lugar. Gosto do cheiro do Brasil.
Desde pequena que viajo muito, é aquilo que mais forte trago
em mim da minha infância e adolescência. O lugar para o qual mais viajei foi
para aqui, para o Brasil. Percorremos a sua costa de cima a baixo de carro e
depois, já só com o meu pai, adentramo-nos nas suas terras, descobrindo o
Pantanal, a Amazônia, Brasília… tantos e tantos lugares. E de todos guardo uma
memória em comum que se junta a esta que estou a criar desta ilha: o cheiro. É
um cheiro quente, que enche as narinas de uma certa humidade, um certo fumado,
um certo não-sei-o-quê que enche a alma e carrega o corpo para um “cá estamos,
finalmente”.
Estou a aprender isto de viver entre cá e lá. É toda uma
dinâmica para a qual só há duas formas de lidar, ou pelo menos são aquelas em
que transitei: ou se complica tudo, querendo prever tudo o que poderá
acontecer, aquilo que poderemos encontrar, quais as respostas a dar para certos
acontecimentos, fazer 8 malas gigantes com quilos e quilos de roupas, roupa de
cama, livros, objectos “para nos sentirmos em casa”, coisas, coisinhas… ou… se
simplifica tudo e as malas reduzem-se a metade, as perguntas são respondidas
com um “logo se vê”, as dificuldades trazidas ao de cima por outros são
prontamente barradas e uma sensação de bem-estar com o que está para vir
prevalece.
Claramente, a maior parte das minhas questões e dificuldades
advinham do facto de irmos fazer esta viagem com um bebé. E muitas questões continuam
a latejar na cabeça. No entanto, são problemas que, caso venham a se
manifestar, somente terão a sua importância dentro de alguns anos. Entretanto,
tentamos fazer desta experiência algo que vai ser, e já está a sê-lo,
verdadeiramente bom para ela.
Espero que consigamos transmitir-lhe a paz necessária e boas
experiências que continuem este crescimento feliz para ela, e para nós.
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