… de não se (querer) estar bem.
Há já algum tempo que quero
tentar pôr isto em palavras. Já comecei várias frases na minha cabeça, mas
acaba tudo num enorme nó. Mas, a verdade é que, eu tenho um vício. Tenho o vício e de dar a ideia de que não estou bem
aos outros.
Digo “dar a ideia” porque na
verdade eu estou bem e feliz. Sinto-me calma, sinto que desde que fiquei
grávida muito daquilo que eu via e sentia como um problema se relativizou
bastante. A única grande alteração negativa que se deu nas minhas relações foi
uma queda brutal no meu grau de capacidade de tolerar o outro.
Agora posso cair no perigo de me
tornar algo snob,
não sei, espero que não, mas sempre fui muito condescendente. Sempre tive muita
paciência com os outros, mesmo quando eu não conseguia concordar em absoluto
com o que essa pessoa poderia dizer ou fazer. Isso é um lado. O outro lado, que
vejo do alto da minha intolerância, é que eu sempre fui bastante incapaz em
enfrentar os outros. Existem pessoas que, consciente ou inconscientemente, me
maltrataram bastante nos últimos tempos e eu, calmamente, aceitava. E em casa
explodia de frustração, de nervoso e de raiva de mim mesma por permitir esse
abuso, tudo fruto de uma grande falta de auto-estima. Os meus problemas têm
todos, ou quase todos, como base essa falta de auto-estima.
O que acontece é que, no momento
em que descobri que estava grávida, fez-se um click. E simplesmente aconteceu e foi adensando com o tempo,
aumentando exponencialmente após o nascimento da minha filha. Comecei a limpar o que me rodeia. Assumi aquilo
que me fazia mal e aqueles que me faziam mal e simplesmente cortei. Mas isto
não foi consciente, não foi uma decisão tomada e levada a cabo. Aconteceu.
Perdi a paciência e comecei a responder e quando não dava a lado nenhum,
comecei a cortar. Noutros, simplesmente deixaram de fazer parte da minha linha
de pensamento, deixei de os sentir.
No entanto, como disse, isto foi
adensando. E em alguns momentos chegou a pontos um pouco exagerados, ou
socialmente incorrectos apesar de estarmos certos (diz a minha intolerância). E
isto foi-me afastando das pessoas. Em geral. E se antes, eu era daquelas pessoas
que “chegavam bem aos sítios” (expressão do P., o meu ele), bem disposta e
sorridente, tornei-me naquelas pessoas que chegam quase furtivamente e quando
alguém pergunta “Então, tudo bem contigo?” eu respondo “Vai-se andando, tem
dias”. É como se de repente aquilo que não gosto ou acho feito se tivesse
tornado no meu discurso. Como se as pessoas só falassem para se queixar, porque
há, de facto, muita gente assim, que gosta de falar de doenças, insónias, de
falta de isto ou aquilo.
O que me leva a escrever isto é o
facto de achar isto triste porque os meus dias são bons, quase todos luminosos,
são de descoberta, passo-os com ela, a passear ou em casa, a vê-la crescer, a
dar aulas, finalmente, a fazer o mestrado que está a correr bem, tenho uma
escola, dois países que me acolhem, uma menina feliz, um ele bonito, uma
família à italiana. Tanto, tanto e tão bom e eu neste vício.
Um dos problemas deste vício é
que, no poder que a palavra tem, de tanto o repetir, a cabeça começa a sentir. E
tenho que (re)aprender a dizer “Sim, estou bem”. Porque essa é a melhor forma
de “Sim, estarmos bem”.
Inês, Lx. 6.2.2015
*Imagens do Pinterest




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