…para mim, tua mãe, este é o tempo ideal, aquele em que te tenho por perto.
…o tempo de te sentir, de ouvir as gargalhadas dela, cada vez mais sonoras, o tempo de conversas, de trocas de tudo o que somos.
Tem sido um tempo de enorme trabalho para ti: ensaios, textos, escritas, cuidar dela, de ti e da tua pequena família.
Ver-te naquele palco, a noite ia alta e a espera muito longa, o nervoso e a ansiedade eram tremendos.
Eras tu aquela padeira disforme, enorme, de olhos tortos e boca ao lado? Aquele riso estranho era teu? Aquele texto difícil num monólogo cheio de vozes, eras tu quem o dizias?
Há em ti um lugar desconhecido, forte, intenso. Extraordinário.
Ver-te ali no palco, sozinha e cheia de presenças, tudo em ti diferente; da voz ao corpo, tudo. A minha filha mais pequena? Ela? Tu?
Senti todo o orgulho de mãe, toda a emoção de te ver assim, actriz.
Imagino o teu trabalho, aquele que não se vê, só se intui…solitário e muito difícil.
Chegaste.
Sim, chegaste a casa, à tua, à janela sobre o rio, aos barcos que passam e enchem o ecrã janela, ao pequeno teatro, ao beco de Alfama, aos sons da tua cidade…à nossa casa comum.
Chegaste.
Sinto-te por perto, à distância do meu abraço real. De mãe.
Tens tempo, todo o tempo do mundo.

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