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Saturday, May 9, 2015

Da Saudade ou a Mudança | Do outro lado do mundo

Já cá estamos há dois meses inteiros. Faltam dois meses e pouco para regressarmos a Portugal.

Nesta viagem estou a sentir mais saudades de Lisboa do que da outra vez. No ano passado pensava isso mesmo, como não sentia nenhuma melancolia ao pensar em Lisboa, como estava feliz aqui. A verdade é que um ano se passou e as circunstâncias mudaram: da outra vez deixei Portugal e o meu círculo de vida lá no meio dum caos impossível, o que só me motivou mais ainda a vir sem olhar duas vezes para trás, e com uma barriga de sete meses, pelo que a perspectiva dos meses que iriam suceder aqui no Brasil era de luz e descoberta. E claro, tinha o factor novidade: nunca tinha estado em Florianópolis antes, o que, juntamente com o amor que já sentia pelo Brasil, só ajudou nessa viagem.

Quando chegamos a Lisboa deu-se em mim um fenómeno: eu que sempre amei Lisboa, as suas ruas, a sua luz, os seus prédios fechados, o Castelo sobre o rio, a minha rua em Alfama… vi como a cidade estava feia. Foi um choque muito triste para mim. A verdade é que Lisboa está a uma velocidade imensa a ficar mais bonita e cuidada. Mas senti muito a diferença do meu ambiente na ilha, onde, mesmo no meio do caos da cidade, o horizonte que me rodeava sempre eram os “morros” verdes e o cheiro sempre quente vindo da natureza. Sempre preferi o campo à cidade e agora que experienciei viver num ambiente como o primeiro, Lisboa começou a perder os seus encantos. Acredito que será algo passageiro (assim o espero) e consiga voltar a ver com os mesmos olhos de admiração a cidade que é o meu berço e manter por estas duas casas o mesmo sentimento, conseguir encontrar em ambas um porto-seguro, um lugar que sei que me acolhe e que me espera.

No entanto, como disse ao início, este ano sinto mais saudades. As circunstâncias mudam e provavelmente esta saudade é provocada pelo reconhecimento de que nada se repete, tudo continua.

Quando há um ano esperávamos uma bebé, preparávamos a casa, preparávamos-nos a nós, eu me permitia dar descanso, viver o momento da descoberta, este ano começo a sentir a vontade de procurar o mundo lá fora. Há um ano que sou mãe a tempo inteiro. Há um ano que cuido dela, a amamento, passo os dias a brincar, a cuidar, a fazer o melhor possível. Amo cada dia que passo com ela e já começo a olhar para os fins-de-tarde na nossa casa de Lisboa com uma certa nostalgia. Mas, como já li algures, quando o bebé faz um ano, há toda uma transformação na vida da mãe: ela volta a olhar para si mesma.


E estou nesse processo. De retornar ao eu-eu. Ao que eu quero para mim. Sem egoísmos à mistura: é assim mesmo. Ainda estou a tentar a perceber as movimentações cá dentro. Há um certo nervosinho miudinho a crescer. E de repente Lisboa parece ser a resposta. Pode ser que quando chegue lá continue num certo impasse e a sensação se reverta para aqui. Tantas possibilidades… Mas o que espero mesmo é conseguir dar esse salto. Voltar a mim e encontrar o equilíbrio entre o eu e ela, eu e nós, a nossa família.


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