Já cá estamos há dois meses inteiros. Faltam dois meses e pouco
para regressarmos a Portugal.
Nesta viagem estou a sentir mais saudades de Lisboa do que
da outra vez. No ano passado pensava isso mesmo, como não sentia nenhuma
melancolia ao pensar em Lisboa, como estava feliz aqui. A verdade é que um ano
se passou e as circunstâncias mudaram: da outra vez deixei Portugal e o meu
círculo de vida lá no meio dum caos impossível, o que só me motivou mais ainda
a vir sem olhar duas vezes para trás, e com uma barriga de sete meses, pelo que
a perspectiva dos meses que iriam suceder aqui no Brasil era de luz e descoberta.
E claro, tinha o factor novidade: nunca tinha estado em Florianópolis antes, o
que, juntamente com o amor que já sentia pelo Brasil, só ajudou nessa viagem.
Quando chegamos a Lisboa deu-se em mim um fenómeno: eu que
sempre amei Lisboa, as suas ruas, a sua luz, os seus prédios fechados, o
Castelo sobre o rio, a minha rua em Alfama… vi como a cidade estava feia. Foi
um choque muito triste para mim. A verdade é que Lisboa está a uma velocidade
imensa a ficar mais bonita e cuidada. Mas senti muito a diferença do meu
ambiente na ilha, onde, mesmo no meio do caos da cidade, o horizonte que me
rodeava sempre eram os “morros” verdes e o cheiro sempre quente vindo da
natureza. Sempre preferi o campo à cidade e agora que experienciei viver num
ambiente como o primeiro, Lisboa começou a perder os seus encantos. Acredito
que será algo passageiro (assim o espero) e consiga voltar a ver com os mesmos
olhos de admiração a cidade que é o meu berço e manter por estas duas casas o
mesmo sentimento, conseguir encontrar em ambas um porto-seguro, um lugar que
sei que me acolhe e que me espera.
No entanto, como disse ao início, este ano sinto mais
saudades. As circunstâncias mudam e provavelmente esta saudade é provocada pelo
reconhecimento de que nada se repete, tudo continua.
Quando há um ano esperávamos uma bebé, preparávamos a casa,
preparávamos-nos a nós, eu me permitia dar descanso, viver o momento da
descoberta, este ano começo a sentir a vontade de procurar o mundo lá fora. Há
um ano que sou mãe a tempo inteiro. Há um ano que cuido dela, a amamento, passo
os dias a brincar, a cuidar, a fazer o melhor possível. Amo cada dia que passo
com ela e já começo a olhar para os fins-de-tarde na nossa casa de Lisboa com
uma certa nostalgia. Mas, como já li algures, quando o bebé faz um ano, há toda
uma transformação na vida da mãe: ela volta a olhar para si mesma.
E estou nesse processo. De retornar ao eu-eu. Ao que eu
quero para mim. Sem egoísmos à mistura: é assim mesmo. Ainda estou a tentar a
perceber as movimentações cá dentro. Há um certo nervosinho miudinho a crescer.
E de repente Lisboa parece ser a resposta. Pode ser que quando chegue lá
continue num certo impasse e a sensação se reverta para aqui. Tantas
possibilidades… Mas o que espero mesmo é conseguir dar esse salto. Voltar a mim
e encontrar o equilíbrio entre o eu e ela, eu e nós, a nossa família.
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